CHANEL

Ago 21 • Cultura, Mundo • 733 Views • Sem comentários em CHANEL

Não se queimaram soutiens, mas nem por isso a emancipação feminina foi menos significativa: desapertaram-se espartilhos, alargaram-se cinturas, libertaram-se as mulheres. Nasceu Chanel.

“Swear it on Chanel”, pedia Carrie Bradshaw, como se a etiqueta fosse o objeto mais sagrado à face da Terra. E, no que toca à moda, talvez seja. Porque se o nome “Chanel” se vulgarizou, é apenas porque o seu contributo para o estilo e, consequentemente, para a sociedade, não pode ser medido apenas em peças de roupa. Mas pode ser medido em vanguardismo.

Estávamos em 1910. Gabrielle Chanel já havia conquistado as damas da alta sociedade com os seus chapéus e, apoiada pelo namorado – Arthur “Boy” Capel – abriu a sua primeira loja, no número 21 da Rue Cambon, sob o nome de Chanel Modes. A especialização em chapéus e acessórios rapidamente se desdobrou para roupa.

Três anos depois, expande o negócio para Deauville, e viu-se no sítio certo, à hora certa. Com a Primeira Grande Guerra, a elite parisiense foge da capital com uma pressa que não lhe deixa carregar o guarda-roupa. Uma vez em Deauville, recorrem ao conforto das criações de Coco. A escassez de tecido durante a guerra forçou a criadora a fornecer-se em jersey, até então um tecido reservado para roupa íntima masculina: a sua ousadia triunfa. Obstinada em querer quebrar a silhueta feminina tradicional, Coco Chanel recusa a moda da época dos opulentos vestidos com espartilho, preferindo uma aparência mais andrógina, composta de vestidos direitos e calças – reservadas, na altura, apenas aos homens.

No pós-guerra, a empresa prospera e emprega cerca de 300 trabalhadores. Em plena ascensão, em 1921, Gabrielle adquire dois novos edifícios na rue Cambon, amplia a sua loja e lança a sua própria marca de perfume. É ao criador de perfumes da corte russa, Ernest Beaux, a quem é confiada a elaboração da primeira fragrância: o famoso n º 5. Um mito nasceu com o perfume e a escolha do seu nome. Curiosamente, Ernest Beaux tinha apresentado a Coco Chanel conjuntos de amostras numeradas de 1 a 5 e de 20 a 24. A escolhida foi a nº5.

Em 1926, Coco Chanel criou la petite robe noir: Um vestido preto – cor inédita na Alta Moda, pois era reservado ao luto. Este modelo, inspirado no uniforme que a própria usara no orfanato, é felicitado pela Vogue e apelidado de “Ford Chanel” por, tal como o modelo T da marca de carros, ser o acessível uniforme da mulher moderna. Um misto entre luxo e contenção, entre classicismo e modernidade, entre eterno e contemporâneo, elevava-se como um dos ingredientes-chave do motim contra os códigos de vestuário impostos pela sociedade. “Com uma camisola preta e dez filas de pérolas revolucionou a maneira como nos vestimos”, dizia Christian Dior. Mas a quebra com a Belle Époque não terminava aqui.

No mesmo ano, Chanel introduziu o impermeável e o blazer com botões dourados nas suas linhas de alta-costura. Em 1929, Gabrielle decide lançar uma loja de acessórios. O estilo é exportado para os Estados Unidos, fazendo com que as suas criações deleitem grandes estrelas como Greta Garbo e Marlene Dietrich. As mulheres modernas desabrochavam de cabelo curto, vestidas em negro, com vestidos fluidos que não lhes acentuavam a curvas. Brincavam com(o) os rapazes, dançavam e davam os créditos da palavra “chic” a Coco.

Grande amante de joias, Chanel lança, desde 1924, um estúdio para a criação das mesmas. Em tempos de crise económica, em 1932, lança a sua primeira coleção de Alta Joalharia. Mas a Segunda Guerra Mundial precipitou o declínio da casa, e, embora Gabrielle empregasse cerca de 4000 trabalhadores, é forçada a fechar as lojas e exila-se na Suíça.

Não retornará até ao início dos anos 50, um período de glória para Christian Dior e o seu “New Look”, com o retorno ao classicismo, contrário à sobriedade reivindicada por Coco. E aqui está a diferença entre um nome e um ícone: Gabrielle revolucionou a Moda não uma, mas duas vezes.

Neste contexto, a Casa Chanel reabre em 1954, aos 71 anos, e é forçada a afirmar o seu estilo com inúmeras peças marcantes – Karl Lagerfeld chama-lhes les éléments éternels. Em 1955, a carteira em pele matelassé – que ficaria conhecida como 2.55 (por ter sido criada em fevereiro desse ano), surge na sua versão definitiva e, em 1957, as sabrinas bicolores com a ponta preta são um sucesso. A marca continua a ser popular desde então: jersey, tweed, botões e presilhas de uniforme, casacos, bijuteria, calças para mulheres, motivos em forma de camélias, laços pretos, e pérolas são todos assinados por Coco Chanel. Recebe um Oscar da moda, em Dallas, e a atriz Marilyn Monroe, confessa numa entrevista que, para a cama, usa apenas algumas gotas de Chanel n º 5 e nada mais. A marca recebe, inquestionavelmente, a mais eficaz publicidade.

Coco foi a stylist original, a mulher que trabalhava com bases e as elevava a necessidades, que sabia o que as mulheres precisavam antes de elas perceberem.

A 10 de janeiro de 1971, Gabrielle Chanel deixa o mundo com 88 anos, no seu apartamento em Paris. No dia seguinte, é apresentada a sua ultima coleção de alta costura, com aplauso da crítica.

Philip Guibourgé, continua o trabalho da criadora e, em 1978, lança a primeira linha de pronto-a-vestir da marca. Após 10 anos de entrada e saída de outras casas, o génio Karl Lagerfeld – que trabalhou na Balmain, Fendi e Chloé – impõe-se como o herdeiro de Coco Chanel, em 1983.

Caricaturando, há 30 anos, os símbolos mais preciosos de Gabrielle, Lagerfeld reinventa a maison a cada estação, em explosões de criatividade que não cessam de provocar ovações coletâneas. Novos objetos de desejo são apresentados ao lado dos pilares Chanel, apoiados por um diretor criativo com amor à arte, amor à história e amor a Coco. “Nada é mais bonito que a liberdade do corpo”, dizia Gabrielle. Mas o mundo acrescenta que “nada é mais bonito que Chanel”.

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