Como será pilotar uma Geringonça à moda são-tomense?

Dez 5 • Política, STP • 114 Views • Sem comentários em Como será pilotar uma Geringonça à moda são-tomense?

Uma vez empossado o governo após a constituição da Assembleia Nacional e da nova maioria, eis o desafio para o novo executivo liderado pelo professor Jorge Bom Jesus: como será pilotar uma Geringonça à moda são-tomense? Etimologicamente a palavra Geringonça vem do vocabulário informal/vulgar, mais utilizado sobretudo no Brasil, para definir “coisa ou construção improvisada ou com pouca solidez”

“Geringonça”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013

A homologação do termo à política surge em 2015, após a constituição de um governo de incidência parlamentar em Portugal liderado por António Costa. Este governo foi engendrado para substituir o legítimo encabeçado por Pedro Passos Coelhos, que embora tenha vencido as eleições caiu no parlamento, por não ter apoio da maioria dos deputados. O governo da Geringonça foi desenhado para durar apenas uma legislatura, de acordo com os mais séticos. O certo é que resiste até hoje, não obstante, apresente já muito desgaste numa altura em que se prepara para completar 4 anos ao leme dos destinos lusos.
Cenário idêntico esboça-se agora em São Tomé e Príncipe. Um governo de incidência partidária acaba de tomar posse também ele para substituir um outro, legítimo, sem apoio parlamentar. Uma espécie de Geringonça que se propõe mudar agendas e políticas até aqui adotadas pelo anterior executivo, tudo porque na ótica da nova maioria não estava a corresponder as expetativas do povo. Em Portugal deu e tem dado certo, embora hoje mais do que nunca já se note sinais de algum desmoronamento. Será que em São Tomé e Príncipe resultará? Esta inovação na política portuguesa provocou admiração em todo o mundo e foi até objeto de estudo para a Alemanha. Mesmo sendo a campeã europeia de “superavit ”, enviou um mensageiro especial para aprender em Portugal, o que afinal é Geringoça. António Costa nas vestes de “professor” ensinou e vem ensinando como é pilotar uma Geringonça. Mas todos temos assistido como o tem feito. As gincanas políticas e os jogos de cintura que tem desencadeado, pendendo ora para o lado do Bloco de Esquerda, ora para o do Partido Comunista Português, muitas vezes pondo em xeque a sua própria bancada parlamentar e o seu partido. No entanto, com mais ou menos cedências a Geringoça tem resistido. E em São Tomé e Príncipe como séra? Jorge Bom Jesus, professor de facto, com competências reconhecidas, sobretudo durante o seu exercício enquanto ministro da educação, é capaz de pilotar uma Geringonça à moda “santola”?
Todos sabemos que a grande diferença entre São Tomé e Príncipe e Portugal é que de facto, em Portugal luta-se, pende-se e cede-se em prol de políticas públicas, leis e medidas à favor de um bem mais ou menos comum. Enquanto que em São Tomé e Príncipe, volvidos que estão 42 anos de independência, ainda luta-se para a subsistência pessoal. Ou seja, os interesse pessoais são e tem sido sempre postos em primeiro lugar em detrimento do coletivo. Assim sendo, será o professor capaz de usar a sua esperteza para alterar de uma vez por todas esta situação?
Os partidos que constituem a nova maioria são bem conhecidos dos sao-tomenses e já estiveram por vários anos no poder. O resultado é por todos conhecido. Embora a orgânica do executivo manifeste algum sangue novo, a grande espinha dorsal é uma vez mais constituída por antigos e históricos rostos que terão alegadamente ao longo dos anos, ajudado a delapidar os cofres do estado e as financas públicas.
Uma coisa e unirem-se todos para derrubar do poder Patrice Trovoada e as suas políticas, classificadas por muitos de ímpeto populista, outra coisa completamente diferente é governar em coligação e fazer melhor do que o governo anterior, ao mesmo tempo que satisfaz os desejos dos parceiros de coligação.
Como o próprio nome diz, coligação é apenas uma união de forças em prol de um objetivo. Já coligações eleitorais visam união de forças entre dois ou mais partidos políticos para eleger um ou vários candidatos, mas não segnifica que as ideias e os objetivos dos envolvidos sejam o mesmo depois da eleição. Há mesmo autores que consideram que as coligações muitas vezes fraudulentam as aspirações populares no sentido em que “as coligações distorcem tal correspondência e trabalham contra a lógica que deveria reger o sistema proporcional”, como já anotou Tavares, 1994.

“O eleitor escolhe o partido, encarnação dos valores, opiniões e propostas que gostaria de ver presentes no poder Legislativo, mas ajuda, com seu voto, a eleger alguém de um partido diverso. As coligações geram, assim, uma transferência quase lotérica dos sufrágios, retirando a homologia entre vontade popular e representação no parlamento que o sistema busca”.

Perante este cenário, o governo de Jorge Bom Jesus tem pelo menos duas tarefas hercúleas pela frente, para depois colocar em prática as suas políticas com vista ao desenvolvimento do arquipélago.

1-Aprender de facto a pilotar uma Geringonça, através de cedências aos parceiros de coligação, mas sobretudo através de uma demonstração de pulso forte e firme rumo ao objetivo comum.

2-Mudar de uma vez por todas o paradigma aprogoado até agora, em que os interesses privados se sobrepõem aos interesses públicos e comuns. A velha máxima reinante em São Tomé e Príncipe desde 12 de Julho de 1975, que se traduz no famoso “ primeiro eu, segundo eu, terceiro eu e a minha familia e se restar é que vêm os outros” tem de acabar.

Brany Cunha Lisboa

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