“Não é fácil ser-se imparcial num país como São Tomé e Príncipe”-Jerónimo Moniz

Fev 19 • Sociedade, STP • 1476 Views • 3 comentários em “Não é fácil ser-se imparcial num país como São Tomé e Príncipe”-Jerónimo Moniz

A convicção é do jornalista são-tomense Jerónimo Moniz, que conversou com o Reporterstp, sobre o exercício da função, a influência do poder e a liberdade de expressão.

Acompanhem a baixo a entrevista na íntegra.

Brany Cunha Lisboa – Como é ser-se jornalista fora de São Tomé e Príncipe? De uma forma geral, conte-nos a sua experiência.

Jerónimo Moniz – Praticar jornalismo não difere do local onde se desempenha a função desde que o profissional o faça com sentido de responsabilidade. Esta responsabilidade pressupõe isenção acima de tudo. No meu caso particular, comecei a gostar da comunicação social ainda muito jovem. Tinha eu 10 anos quando pela primeira vez fui convidado pela malograda Alda do Espírito Santo a ler um discurso no dia internacional das crianças perante altas figuras do regime único na praça Yon Gato. Fí-lo com dedicação e desde então descobri o bichinho da comunicação. De seguida convidaram-me para dar a voz num programa infantil na Rádio Nacional. Desde de então passei a conviver com pessoas ligadas a comunicação Social. Em finais dos anos 80 e princípios de 90 o país começava a dar sinais de mudança do regime político e foi neste período que surge a ideia de formação de novos quadros para a Televisão são-tomense.

Eu e mais alguns colegas fizemos o curso e tivemos o privilégio de inaugurar o novo Centro Emissor da TVS na Quinta de Santo António. Foram bons tempos. Recordo-me de ter sido o primeiro jornalista no regime Democrático que participou em Abuja a capital federal da Nigéria na Cimeira da extinta Organização de Unidade Africana, atual União Africana.

Em Maio de 1992 vim para Portugal fazer um estágio na Escola Superior de Comunicação Social em Benfica e decidi ficar para continuar os meus estudos. Enquanto estudava no Instituto Superior de Ciências Sociais e Politicas surgiu o projeto RDP-ÁFRICA, cujo Diretor era David Borges. Eu e mais alguns colegas da faculdade fomos convidados a fazer parte desta iniciativa mediante uma ação de formação.

Fizemos tudo como manda a lei Portuguesa e fomos selecionados para fazer parte do núcleo fundador da referida estação emissora.

Confesso que inicialmente não dei muita importância ao facto de estar a trabalhar numa Rádio que a partir de Lisboa pudesse interagir com os meus concidadãos no país e na Diáspora. Só comecei a dar valor quando iniciei o programa Interatividades. Este programa desde a sua criação até a data cumpre o objetivo de aproximar os emigrantes aos seus países de origem e ajudá-los a resolverem os problemas de legalização. Para concluir dizer-lhe que é uma experiência gratificante exercer fora do país a profissão de jornalista. Tem contribuído imenso para a minha formação intelectual e ajudado a compreender melhor o mundo que nos rodeia e em particular os países Lusófonos.

Brany Cunha Lisboa – Como é que tem visto o desenvolvimento da classe jornalística são-tomense ao longo dos anos? Quais são os principais constrangimentos que existem na sua opinião?

Jerónimo Moniz – Com muitos altos e baixos ou seja repleto de bons e maus momentos. Sabe bem como eu, que a nossa comunicação social ainda é muito estatizada o que faz com que os detentores do poder em qualquer altura tenham a tentação de querer controlar toda informação que lhes compromete.

Este problema por si só tem influenciado, e de que maneira, a atuação dos jornalistas sobretudo aqueles que trabalham nos órgãos estatais de Comunicação Social. Aliado a tudo isto estão as péssimas condições em que muitas vezes trabalham e também a falta de ambição de alguns profissionais no exercício da sua função. A par de tudo isto, reconheço que alguns profissionais procuram a todo o custo melhorar as suas atitudes, procurando ser isentos, exercendo a profissão de forma livre, apesar dos constrangimentos que isto ainda provoca.

Posso acrescentar outros exemplos:

-A promiscuidade entre o jornalista e o poder político e financeiro.

-A falta de sentido de responsabilidade por parte de alguns jornalistas.

-A ausência de um código de conduta.

-Ausência de Estatutos.

-Falta de um Sindicato forte capaz de zelar pelos interesses da classe e não de grupos. Enfim são tantos exemplos que como vê parece que tudo está por fazer a nível da classe jornalística são-tomense.

Brany Cunha Lisboa – Já que falou na influência do poder, como é que vê efetivamente essa influência sobre a classe e os meios de comunicação social existente?

Jerónimo Moniz-Sabe que a comunicação social sempre foi e continua a ser muito utilizada pelos políticos como meio para conseguirem os seus objectivos. Em países mais desenvolvidos esta influência também existe. Daí que é contraproducente pensar que em São Tomé e Príncipe isto não acontece. Sabemos todos que os poderes instalados procuram sempre exercer pressão sobre os jornalistas sobretudo quando estes fazem o trabalho de forma isenta. No caso particular do nosso país, a influência do poder é mais notável por causa das dificuldades que enfrentam muitos profissionais da Comunicação Social.

No meu entender a solução seria: Investir na Comunicação Social e por conseguinte nos profissionais fazendo deles pessoas de bem e livres de qualquer constrangimento.

Brany Cunha Lisboa – Na sua opinião os jornalistas são-tomenses conseguem ser imparciais?

Jerónimo Moniz – Não é fácil ser-se imparcial num país como São Tomé e Príncipe. O que não quer dizer que não se possa ser. Tenho acompanhado de perto alguns trabalhos dos meus colegas e reparo que a classe está dividida e tem sido usada sobretudo por pessoas ou grupos com muita influência no país. E muitas vezes atuam desta forma com o consentimento do próprio Jornalista que não tendo como resolver os seus problemas económicos e financeiros aceita ser manipulado, prejudicando toda uma sociedade.

Como se costuma dizer, na casa onde não há pão, até as migalhas servem para matar a fome. E se isto continuar assim torna-se complicado ser-se imparcial.

Brany Cunha Lisboa – Para si existe liberdade de expressão e de imprensa no país? Justifique.

Jerónimo Moniz – Claro que existe liberdade de expressão no país. Só não sei se esta liberdade de expressão é aplicada a cem por cento ao nível da comunicação social. Porque o pluralismo, o debate de ideias, a livre troca de informação gera sociedades mais abertas e mais desenvolvidas. E o desenvolvimento gera necessariamente mais conhecimento. E São Tomé e Príncipe que é um país em vias de desenvolvimento não pode fugir a regra daquilo que é o padrão da sociedade de informação global.

Entrevista conduzida por Brany Cunha Lisboa

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