Políticas e políticos são-tomenses aos olhos do analísta Abílio Bragança Neto

Ago 27 • Sociedade, STP • 1186 Views • 1 comentário em Políticas e políticos são-tomenses aos olhos do analísta Abílio Bragança Neto

O reporterstp conversou com o analista político que traçou o perfil e a radiografia das políticas e políticos do país e fez prognósticos para o futuro.

A entrevista abaixo, conduzida pelo jornalista Brany Cunha Lisboa.

Brany Cunha Lisboa-1º qual o atual estado da política em São Tomé e Príncipe?

Abílio Bragança Neto-Não é difícil perceber-se que o País está metido, outra vez, num mau e sórdido momento político. Não sendo um fenómeno novo, antes pelo contrário, tem sido até banal na nossa história política pós-independência e até na nossa história anterior a independência, se considerarmos as lutas intestinas no movimento nacionalista. Talvez já fosse tempo de sabermos gerir melhor ou até estar imunes a esse tipo de fenómenos que em nada nos beneficiam e não ajudam minimamente no esforço que estamos obrigados a fazer para sairmos do subdesenvolvimento, da pobreza.

Tenho defendido a tese de que o País está em transição, que tem estado numa espécie de transição, ainda indefinida, nos últimos 4 anos aproximadamente. Isto porque nós, são-tomenses, percebemos, ajudados pela crise internacional, que o nosso modelo de desenvolvimento, sustentado em ajuda externa não resulta, não é viável, nem é possível de manter, percebemos também, conscientemente, que cometemos demasiados erros e que perdemos muitas oportunidades, logo, estamos obrigados a procurar e encontrar novos caminhos.

É óbvio que, tratando-se dum momento de transição, um tempo de dinâmicas de rupturas, ele é feito de avanços e recuos, é feito de consensos e de conflitos e é feito com o impulso do aparecimento de forças progressistas e com a resistência de forças conservadoras. Normal, isto é ideológico. O que não é normal é não estarmos a aprender com a rapidez necessária e rectificativa o que está a ocorrer, o que os novos tempos estão a propor.

O actual mau momento santomense que tem o seu zénite na queda do governo de Patrice Trovoada, em Novembro, em consequência da moção de censura da oposição, que se uniu para o efeito, estava anunciado na cabeça de todos, caso se desse uma série de acontecimentos que vieram a concretizar-se, nomeadamente, uma coabitação de elevado risco para a estabilidade governativa. Portanto, trata-se de um mau momento anunciado, mas estranho porque não se esperaria – eu desconfiava -, que o poder actual  que é hegemónico, um Presidente, um Governo apoiado pelo Presidente e uma Maioria que apoia o Governo, fosse tão inepto e tão incompetente ao ponto de se desnudar por completo em 9 meses de governação.

Brany Cunha Lisboa-2º Que tipo de política e políticos assistimos actualmente?

Abílio Bragança Neto-Não temos política, não no sentido ideológico e reformista, temos demasiada intriga e jogo político, demasiados interesses pessoais e grupais. Não sei se por isso não reste energia as pessoas para pensarem em política à sério, não sei se é por falta de preparação, não sei ainda se será por pura incompetência e incapacidade. Sei que na ausência de ideias, valores e propostas políticas, prevalecem truques e se estes falham, prevalece a inacção, a acção circular, a violência e os ataques pessoais como última razão. O que tem sido nefasto para o País, como se percebe.

Para piorar o quadro, temos pouquíssimos políticos, no sentido contemporâneo do termo, ou seja, políticos com uma visão global do País e sobre o seu modelo de desenvolvimento; políticos que concebam uma estratégia e que a adeqúem a sua ação executiva e que sejam capazes de o fazer com eficácia, pragmatismo e sucesso; e políticos que tenham uma noção clara das tendências políticas e socioeconómicas do mundo. Pior que isso, por cima, temos pouquíssimos políticos que entendam os princípios básicos de democracia e sua práxis, temos poucos políticos culturalmente democratas.

Temos o que temos tido, desde sempre, e em excesso, um imenso vazio de debate político profundo e descomplexado e temos duas mãos cheias de pessoas que não entendem de nada, a não ser de jogos de intrigas e ataques pessoais, são estes que têm estado assumir cargos de responsabilidade política, há demasiado tempo em São Tomé e Príncipe, são os mesmos que constituem o poder hegemónico no País. Não há milagres, com esse quadro de falta de pensamento estratégico, de debate reflexivo, de liderança e de recursos humanos capazes de executar, o resultado só pode ser o que temos.

Por exemplo, sendo honesto, se me pedissem que escolhesse um Deputado dos 55 com mandato em vigor na Assembleia para ter uma conversa sobre política, um deputado com quem gostasse de ter uma conversa sobre política e desenvolvimento, colocar-me-iam numa posição de escolha difícil. Há para aí 2 ou 3 com quem conseguiria conversar, não mais do que isso. Quando digo conversar sobre política, se calhar também deveria dizer conversar sobre futebol ou croché, conversar sobre qualquer tema, enfim, simplesmente conversar.

Brany Cunha Lisboa-3º Sem apontar o dedo a este ou aquele governo/governante, acha que estamos no caminho certo para atingirmos bom porto, ou a avaliar pelo que temos no momento o país não verá tão cedo uma luz no fundo do túnel?

Abílio Bragança Neto-Sou um optimista, como é sabido. No entanto, nunca estive tão pessimista relativamente ao futuro do País. Escuso de enumerar as razões para o meu pessimismo. A realidade, os últimos acontecimentos, as reacções ou inacções dos políticos no poder, porque têm outra responsabilidade, mas também as acções pouco estruturadas e estruturantes da oposição, são as minhas respostas. A percepção sobre a realidade é pior ainda, pois começa a remeter-nos para uma agenda política completamente neurótica e obsessiva que não ajuda a focarmo-nos no essencial que é o desenvolvimento e a modernização do País. Escuso-me de fazer uma tese sobre o óbvio.

Sou um optimista, continuo um optimista no que concerne ao futuro do País, não duvido um minuto que estamos destinados a ter um futuro melhor. Estamos mal, o País está mal não se pode negar isso. Acho que nem se deve sequer tentar negar isso. A situação tornou-se dramática e custa perceber as razões de tal dramatismo, repito, temos um Presidente, um Governo apoiado pelo Presidente e uma Maioria Parlamentar que apoia o Governo, não haveria razões aparentes para se falar em crise, mas fala-se diariamente nela. Convém perceber porquê, as respostas podem explicar porque não estamos no caminho certo.

Estamos em plena transição, estamos em plena consolidação duma bipolarização, por muito que sectores importantes da nossa política estejam em negação, por muito que as nossas elites não queiram mudar de vida, é um facto. Em causa e em colisão, neste momento, estão 2 formas distintas de entender o desenvolvimento e estar no poder, que, lamentavelmente, não resultam, ainda, em 2 formas distintas de conceber projectos desenvolvimentistas para o País, projectos ancorados em bases ideológicas sólidas que possibilitem a Cidadania distinguir com clareza o que propõem os 2 blocos. No entanto, paradoxalmente, para lá caminhamos, a tensão e a crispação actuais são o reflexo disso mesmo.

Repare, podemos discutir as vantagens e as desvantagens da bipolarização, contudo, não podemos negar que uma só das suas vantagens supera a soma de todas desvantagens, a ideia de que ela proporciona e beneficia em muito a estabilidade governativa. Para que as coisas façam sentido, para que se saiba quem pensa o quê, para termos a certeza de que existem projectos distintos para o desenvolvimento do país, teórica e praticamente, só fará sentido depois de experimentarmos períodos razoáveis de estabilidade governativa. Para “atingirmos bom porto” teremos de experimentar governos estáveis, competentes e capazes, com projectos políticos reflectidos e criativos. Parece-me óbvio. O contrário também me parece óbvio, e o contrário é o que temos tido.

Repare, mesmo na 1ª República, nunca chegamos a cultivar o valor estabilidade governativa, que não é o mesmo que ter um chefe a mandar durante muito tempo, é outra coisa, é ter políticas, e executantes das mesmas, em tempo útil delas reflectirem transformações políticas e socioeconómicas relevantes e favoráveis ao conjunto da nossa Nação. Isso sim é estabilidade governativa, isso faz falta ao País e isso é o que podemos vir a ter. Sem isso, acho que não saberemos, nunca, exactamente o que fazer com o País. Esse é, na minha modesta opinião, o ponto de partida. Tudo o resto virá depois.

Brany Cunha Lisboa-4º Vamos tomar como base as sucessivas crises políticas que o país já atravessou para sugerir que tipo de políticos o país devia ter e que tipo de políticas devia seguir rumo ao desenvolvimento.

Abílio Bragança Neto-Há um perfil de político que me agrada, resumo-o em 4 características indispensáveis: pragmático com experiência de gestão no sector privado; liberal de esquerda; cosmopolita versátil, logo, patriota; e cultural e genuinamente democrata. Penso que esse seja o perfil adequado e exigível a qualquer político que pretenda ser reformista e sonhe ter sucesso hoje, em plena Globalização, num momento em que o mundo está em manifesto período de incertezas e rápida mutação. É um perfil que se adapta bem a países, como o nosso, que têm que fazer um esforço enorme para se modernizar, integrar e crescer, para se desenvolver, para enriquecer, oferecendo oportunidade aos seus cidadãos de terem mais e melhor qualidade de vida.

Claro, os políticos não têm que ser todos “liberais de esquerda”, não temos de ser todos, isto é o que eu sou ideologicamente, é o que acho melhor, daí acreditar que deste quadrante ideológico, poder sair as melhores soluções para nós, como tem vindo a acontecer, aliás, com países parecidos com o nosso, em dimensão e em posicionamento geográfico. Creio que o perfil que esbocei saberá incorporar princípios políticos essenciais para afrontar o mundo actual, isto é assim em São Tomé e Príncipe como é na China. Princípios que servirão, com certeza, para suportarem políticas de desenvolvimento inovadoras, criativas, sustentadas e adaptáveis a nossa realidade.

Bom, como 2ª pergunta, colocas uma questão difícil, porque sou um reformista e porque apaixona-me correr riscos, mas se tivesse que responder sobre que tipo de políticas poderiam beneficiar o País, nunca mais terminaríamos esta entrevista, o que seria um enorme aborrecimento para os que a estão a ler. Ainda assim, tendo em conta o perfil de político que esbocei acima, atrevo-me dizer que fica tudo dito relativamente a que tipo de políticas julgo serem as mais correctas para tirar o País do marasmo e projectá-lo para um outro patamar de desenvolvimento. Definitivamente, os leitores podem facilmente adivinhar que seria um pacote de sugestões de soluções políticas muito reformistas e transformadoras, tendo como ponto de partida uma muito profunda reforma da Administração Pública. Pois, é minha convicção, quase que obsessiva de tão repetida, que podemos conceber e projectar um outro São Tomé e Príncipe para o futuro a partir duma outra concepção de Estado, outra concepção de sua acção e outra relação dele com a Cidadania, atribuindo-lhe outras novas funções e re-calibrando e requalificando as suas funções tradicionais, obviamente, para que ele seja capaz de estar a altura de realizar com sucesso os seus novos desígnios, o Estado e os seus agentes terão de ser e estar extremamente competentes e capazes. Tendo isto como referência, não tenho dúvidas que deveria ser possível imaginar um leque amplo de políticas reformistas passíveis de serem executadas a curto médio prazo com vista a radical transformação do País.

Entrevista conduzida por Brany Cunha Lisboa.

 

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