São Tomé e Principe 130 anos de natureza numa semana

Ago 18 • Cultura, Sociedade, STP • 1228 Views • Sem comentários em São Tomé e Principe 130 anos de natureza numa semana

RICARDO GARCIA (TEXTO) E DANIEL ROCHA (FOTOGRAFIA) EM SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE

Durante sete dias, percorremos a ilha de São Tomé a acompanhar as filmagens de um documentário sobre antigas expedições botânicas portuguesas. Neste trajecto, cruzam-se as memórias de dois naturalistas que lá estiveram há mais de um século e o testemunho do experiente botânico Jorge Paiva. Num certo sentido, às vésperas dos seus 80 anos, é o último naturalista português
O botânico Jorge Paiva vai fazer 80 anos em Setembro e queria marcar a data subindo ao ponto mais alto de São Tomé e Príncipe. São 2024 metros acima do nível do mar, mas o que impressiona não é a altitude. Chegar lá implica atravessar florestas cerradas, galgar ou descer planos quase verticais, agarrado aos ramos das árvores, percorrer estreitíssimas cumeadas, com precipícios assustadores dos dois lados. Tudo isto contando com densos nevoeiros e chuvas imprevisíveis.

Quando fez a ascensão em 1885, o jardineiro-chefe do Jardim Botânico de Coimbra, Adolpho Möller, descreveu o caminho até ao Pico de São Tomé como “medonho”, onde “só se passa com risco de vida”, segundo cartas que escreveu na altura. Júlio Henriques, director do Jardim Botânico que esteve na ilha em 1903, concluiu, numa monografia publicada 14 anos depois: “As dificuldades são grandes, e por isso poucos se têm aventurado a ir até lá.”
Jorge Paiva não teme as dificuldades. Subir ao Pico seria apenas um capítulo na mais recente missão deste biólogo, que se notabilizou como professor, investigador e ambientalista, ao longo de décadas na Universidade de Coimbra. Em Julho, Paiva juntou-se a uma equipa de filmagens para seguir parte dos trilhos de Adolpho Möller e Júlio Henriques em São Tomé, num de quatro documentários que a universidade está a fazer sobre as suas expedições botânicas às ex-colónias.

Quando se pergunta aos realizadores Luísa Homem e Tiago Hespanha, da produtora Terratreme, quem será o protagonista do documentário sobre São Tomé, a resposta não é linear. “Aqui não há nenhuma pessoa que seja o motor do filme”, diz Tiago Hespanha. Nem poderia ser de outra forma. O PÚBLICO acompanhou as filmagens durante uma semana e foi como efectuar uma viagem ao longo de um século e meio da história de São Tomé e Príncipe, passando pela opulência e pela pobreza, pela exuberância da natureza e pela sua destruição, pelo saber popular e pela ciência. Todo o trajecto é pontilhado de diferentes temas, épocas e rostos.

Jorge Paiva é uma destas faces. Sentado num sofá, num alojamento dos serviços da cooperação portuguesa em São Tomé, tem aos seus pés uma pequena pilha de jornais velhos. Dentro de cada par de páginas aninha-se uma planta espalmada, colhida durante as filmagens na floresta. Todos os dias é preciso trocar os jornais, para secar as plantas e evitar que apodreçam. “É como mudar um curativo”, diz o botânico. É uma luta sem tréguas contra um poderoso inimigo: a humidade persistente de um arquipélago que emerge do oceano directamente sob a linha do equador.

Mais de um século antes, o jardineiro-chefe Adolpho Möller queixava-se do mesmo. A humidade era um tema recorrente nas cartas que enviou para Portugal durante os quatro meses em que esteve em São Tomé – de Maio a Setembro de 1885. “Muitas vezes tenho de colher a planta mais de uma vez”, escreveu numa missiva a Júlio Henriques. “O herborizar aqui é muito difícil, e a gente mortifica-se por não poder fazer obra limpa.”

São Tomé de Norte a Sul

Herborizar – o ofício de colher plantas na natureza para conservá-las em herbários – foi um dos principais objectivos da missão de Möller a São Tomé. Foi Júlio Henriques quem o enviou ao arquipélago, numa altura em que o Jardim Botânico de Coimbra estava a renascer, depois de décadas de relativo abandono, desde as invasões francesas no princípio do século XIX. A viagem ocorreu também num momento em que outros exploradores portugueses estavam a palmilhar África, como Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, em missões com finalidades ao mesmo tempo científicas, económicas e geopolíticas.

Neste novo esforço, Júlio Henriques repôs e ampliou o herbário da universidade com vastas colecções. A de Adolpho Möller incluía 735 exemplares de plantas, que o jardineiro-chefe embarcou nos vapores que ligavam São Tomé a Lisboa, numa viagem de duas a três semanas. Nos lotes foram também 249 animais.

Pontes entre passado e presente

Colectar plantas foi também o que levou Jorge Paiva a Moçambique em 1963-64. Tinha então 40 anos e percorreu 30.000 quilómetros, no âmbito da Missão Botânica de Angola e Moçambique. “O objectivo era colher, colher, colher”, recorda. Na bagagem, vieram cerca de 24.000 exemplares de plantas.

Em muitos aspectos, as explorações botânicas de antes e de agora tocam-se. Noutros, afastam-se. Na sua expedição ao Pico de São Tomé, Adolpho Möller foi acompanhado por dois gestores de uma roça de cacau e café, dois funcionários da administração colonial, 41 carregadores, dois capatazes e vários cavalos. Em Moçambique, Jorge Paiva tinha consigo o chefe da missão, António Rocha da Torre, dois condutores, um técnico, um cozinheiro e mais quatro ou cinco pessoas que eram contratadas localmente, todos transportados em dois jipes e um camião. Nas filmagens do documentário em São Tomé, são dois biólogos, dois realizadores, um director de fotografia, uma directora e um assistente de produção e dois carros alugados que se revelam um pesadelo logístico, com avarias constantes.

Pontes entre o passado e o presente são algo que o filme pretende construir. Os realizadores já vinham com a ideia de abordar o tema dos curandeiros tradicionais para ligar o antes ao agora, e ambos à ciência. Acabaram por dar com um colector de plantas medicinais na floresta, logo num dos primeiros dias de rodagem. “Eu achava que seria muito difícil encontrar um curandeiro que vai à mata, cortar um bocado da casca de uma árvore. Mas é exactamente assim”, diz Tiago Hespanha.

Outros temas ligados ao uso da floresta vão-se materializando à medida que a equipa percorre a ilha: a exploração de madeira, os homens que transformam troncos em canoas, a utilização artesanal de árvores únicas, como o pau-esteira – que Möller observou em 1885 e Henriques classificou em 1887 como Pandanus thomensis. “Há uma data de coisas que estamos a aprender em directo”, completa Luísa Homem. “Vai ser um filme com muita montagem.”

Muitas vezes, o quotidiano – sobretudo o da pobreza – impõe-se sobre a memória. É o que se sente no dia em que a equipa sai à procura de uma roça abandonada, que a floresta estaria a retomar. A partida é cedo, por uma das três estradas principais da ilha, rumo à costa ocidental. São 45 quilómetros de asfalto e buracos. Pouco depois de passar Neves, a terceira cidade do país, chega-se à localidade de Santa Catarina no momento exacto em que um leitão é atropelado. À volta do animal agonizante, com as tripas de fora, junta-se uma pequena comitiva. “O dono já vai aparecer”, diz uma mulher.
Casas de madeira, ligeiramente elevadas como palafitas: um padrão no país
As casas alinhadas à beira da estrada são na sua maioria rudimentares, de madeira, ligeiramente sobrelevadas como palafitas – um padrão no país. Há crianças por todo o lado, um sintoma misto de férias e natalidade elevada. Aqui, na semana anterior, a directora de produção, Marta Lança, viu-se involuntariamente imersa numa situação perturbadora. Duas mulheres aproximaram-se do carro com dois bebés. “Branca, leva que já tenho muitos para criar”, disse uma delas, colocando a criança sobre o banco. Pedia cinco milhões de dobras, cerca de 200 euros.

As casas de madeira, as crianças, a atmosfera de pobreza são um padrão na generalidade das aglomerações urbanas da ilha. A escassez de emprego é evidente. Muitos dedicam-se à pesca, de peixes-voadores a tubarões.

De Santa Catarina, prossegue-se rumo à roça de São José de Bindá, o destino pretendido. O asfalto transforma-se numa estrada de terra batida e os carros seguem devagar, aos solavancos, até encontrar um grupo de homens com motosserras, que explicam que o caminho não é por ali. Nesse dia, já derrubaram três árvores, transformando os seus troncos em longas pranchas de madeira alva.

Escolhem-se árvores específicas, como a amoreira (Milicia excelsa), o gogó (Carapa excelsa), o pau-branco (Discoglypremna caloneura), o pau-formiga (Psydrax subcordata). Não parece haver grande controlo dos cortes. Mas o impacto está longe do que está a acontecer no Sul de São Tomé, onde um projecto para a produção de óleo de palma está a avançar sobre a floresta, levantando um coro de protestos. Em nada se compara também ao que Júlio Henriques e Adolpho Möller viram na sua época, quando o café e o cacau se encontravam em franca expansão. “Se continuarem nesta faina de deitar abaixo, profetizo que, dentro de 50 ou 60 anos, as condições climatéricas da ilha hão-de mudar”, anteviu Möller.

“Vamos fazer silêncio”

Muitas árvores que não existiam em São Tomé foram semeadas para servirem às novas culturas, como algumas espécies do género Erythrina. “Eram plantadas como árvore de sombra para o café”, explica o biólogo António Gouveia, do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra e coordenador científico do projecto sobre as explorações botânicas em África.

Jorge Paiva chama a atenção para uma particularidade destas árvores. Quando começam a crescer, têm folhas muito grandes, de modo a absorver o máximo da pouca luz que penetra no interior de uma floresta tropical. Quando por alguma razão apanham uma aberta, crescem rapidamente. “Dá um tronco de dezenas de metros sem nós”, diz o botânico. Lá em cima, as folhas grandes deixam de ser necessárias e surgem outras, menores.

Os realizadores resolvem filmar a explicação. “Vamos fazer silêncio agora”, determina Tiago Hespanha, que é quem recolhe os sons, sempre com um grande microfone na ponta de uma haste longa. E ali, num pequeno caminho sufocado pela vegetação, tem lugar mais uma aula de botânica.

A equipa volta para trás, à procura da rota certa. Envereda por um caminho ainda menor, depois segue a pé. “Vão a São José? A estrada é uma e única”, indica um homem à beira do carreiro. Mais à frente, ultrapassa-se uma grande derrocada. Cruza-se depois o rio Lembá, com os pés descalços sobre pedras escorregadias, e sobe-se um caminho de pedras até chegar à roça.

Nota-se que um dia ali houve tudo. Um dia. Porque hoje a roça de São José de Bindá – como tantas outras em São Tomé – é um destroço social e económico. Compõe-se de um conjunto de edificações em ruínas, algumas tomadas pelo mato. A maior e mais vistosa é a antiga casa do feitor, um sobrado de localização magnífica, junto a um vale, com as montanhas ao fundo. No interior, o abandono fez de quartos, salas e casas de banho meros compartimentos vazios, esboroados e sujos.

Nesses escombros do que foi uma casa, vivem alguns homens. “Sou venteiro”, diz um deles, sentado num banco de madeira, diante de uma fogueira à volta da qual jaz um porco moribundo e circulam galinhas e cães esquálidos. Venteiro é aquele que se dedica a extrair o vinho de palma – a etílica seiva de uma palmeira. Cada meio litro é vendido a 5000 dobras, cerca de 20 cêntimos de euro.
Morador de São José de Bindá a apanhar fruta-pão: regime de subsistência
O patrão da roça deixa-os lá morar em troca de trabalho braçal para o resto de agricultura que ainda ali se pratica. “A gente tira o vinho, alguma coisa que ele quer a gente ajuda a fazer”, diz Daniel Castro, que está nesta situação há oito anos. “Se houvesse trabalho em Santa Catarina, não morávamos aqui”, assevera.

O regime de vida daqueles homens tem muito mais condimentos de miséria e de subsistência, do que de trabalho organizado. Não estão longe dos caçadores-recolectores: da floresta retiram grande parte do seu alimento, como fruta-pão ou enormes caracóis, que Adolpho Möller já tinha visto em 1885. “Encontrei neste molusco terrestre ovos do tamanho dos da rola”, escreveu na altura o naturalista.

Um botânico nas sete quintas

Os realizadores não estão satisfeitos com as filmagens. Pedro Pinho, director de fotografia, encolhe os ombros. Queriam uma roça asfixiada por completo pela floresta, mas o cenário não corresponde exactamente ao pretendido. Na volta, a equipa é compensada pela curiosidade de Jorge Paiva por algas que encontra em pequenos charcos e barreiras. As cenas são registadas longamente.

O carismático botânico está nas suas sete quintas. Conhece como poucos a flora dos quatro pontos do planeta. Só em São Tomé esteve 14 vezes. A primeira delas foi logo a seguir à Segunda Guerra Mundial, quando foi para Lisboa a partir de Angola, onde nasceu em 1933. Desde que se licenciou em Ciências Biológicas em Coimbra, não parou de percorrer o mundo, recolhendo e estudando plantas de todos os continentes. “Só não estive na Antárctida”, afirma.

Jorge Paiva gosta de observar as coisas de perto, olhar para as plantas, senti-las, compreender por que é que estão onde estão. Num momento em que a ciência está cada vez mais focada no detalhe, Paiva é uma espécie de último naturalista português, com a visão ampla dos exploradores do passado.

A pergunta que se coloca é o que é que um naturalista no século XXI pode fazer que outros já não tenham feito nos séculos anteriores. Hoje, diz Jorge Paiva, é muito mais raro encontrar algo novo no domínio das plantas vasculares – as que têm um sistema de vasos para transportar a seiva. Mas nem por isso fica reduzida a missão do botânico que vai para o campo. “Já encontrei em Portugal um narciso que se julgava desaparecido”, exemplifica.

Um exemplo clássico de como a descoberta de uma espécie não encerra o assunto é o da palmeira Lodoicea maldivica. Foi assim baptizada quando dela só se conhecia a semente – um enorme coco de até 20 quilos, com o contorno perfeito do quadril de uma mulher e que surgia misteriosamente nas praias das Maldivas. Só mais tarde é que a planta inteira foi descoberta nas Seychelles, a mais de 2000 quilómetros de distância.

Além disso, observar em diferentes locais uma planta já conhecida permite estudar as associações que faz com outras, como se comporta num determinado habitat, como migrou de um lugar para outro. “É preciso continuar a colher”, resume Paiva.

No dia seguinte à ida a São José, parte-se para outras roças para recolher mais imagens. Visitar roças tinha sido um dos objectivos centrais da viagem do director do Jardim Botânico de Coimbra, Júlio Henriques, em 1903. A monografia que depois publicou, em 1917, no Boletim da Sociedade Broteriana tinha precisamente o título: A ilha de São Tomé sob o ponto de vista histórico-natural e agrícola.
A roça Agostinho Neto um dia chamou-se Rio de Ouro

O livro fala de roças como as de Monte Café, Boa Entrada, São João, Água Izé, Porto Alegre, com imagens de várias delas. Numa das fotos da maior de todas – a actual Agostinho Neto – vêem-se trabalhadores em dia de pagamento, concentrados no largo principal da roça. Ao fundo, a rua ampla e inclinada que sobe em direcção ao hospital, ladeada de senzalas. Outras fotos mostram o sobrado avarandado do administrador, um grupo de domésticas impecavelmente vestidas, a ampla enfermaria do hospital, o trabalho na lide do cacau.

Nessa altura, a roça chamava-se Rio de Ouro. Hoje não tem qualquer brilho. “Estamos todos desempregados”, diz José Silvestre Lopes, que se encontra nas escadarias de acesso ao que resta do hospital. Não é o mesmo edifício do tempo de Júlio Henriques, mas outro, muito maior. Nos anos 1990, funcionou sob um programa de cooperação com a Universidade de Coimbra. Ainda lá se encontram, no rés-do-chão, as placas a indicar “Medicina mulheres”, à direita, e “Medicina homens”, à esquerda. Mas o tempo encarregou-se de tudo destruir ou deteriorar. No primeiro andar, os gabinetes médicos agora servem de moradia. Alguns dos seus ocupantes estão junto à porta traseira do edifício, a debulhar o milho e a triturá-lo com um pilão.

Junto ao largo principal, a cabo-verdiana Marcimiana Mendes também trata do seu milho. Aos 56 anos de idade, soma 16 filhos, 21 netos e um bisneto. Vive de uma agricultura modesta, vendendo o excedente no mercado da cidade de São Tomé. Espalhado no chão, o seu lote de espigas chama a atenção de Jorge Paiva, que dele retira exemplares curiosos, com grãos de diferentes cores, variedades que a agricultura intensiva obliterou noutros países, como em Portugal.

A antiga pujança da maior roça de São Tomé sente-se nos testemunhos físicos do passado: carris, máquinas, edifícios – quase tudo deteriorado, transformado, reocupado. A mesma cena repete-se na roça Diogo Vaz, algumas dezenas de quilómetros adiante. Embora ali haja maior actividade agrícola, há máquinas amputadas a enferrujar, atrelados arruinados ou de pernas para o ar, uma pequena locomotiva abandonada, aos pedaços, num descampado. A electricidade já chegou a vir de uma barragem mas a central avariou e agora a luz é um luxo na roça. Segundo uma moradora, só há das 6h30 às 8h, nas oficinas, na secadora e no escritório. “Nas senzalas não há”, diz.

164 No princípio do século XX havia 164 roças em São Tomé, cobrindo 57% da ilha

A agricultura estava no seu apogeu na altura em que Júlio Henriques publicou a sua monografia sobre São Tomé. Cerca de 57% da superfície da ilha estava cultivada. Havia 164 roças, “algumas de área extensíssima”, escreveu o director do Jardim Botânico de Coimbra. A Rio de Ouro tinha 5000 hectares, com “um director, 86 europeus e 2500 serviçais”. A Diogo Vaz não ficava muito atrás, com 3500 hectares, “74 europeus e 2000 serviçais”.

Na descrição que Júlio Henriques faz da vida nas roças, ressalta evidente o regime de semiescravidão que vigorava. Para “vigiar e dirigir” os trabalhadores, havia os “homens do mato”. E o administrador da roça era tudo: “É ele quem faz e desfaz os casamentos, quem julga os delitos e determina os castigos, quem resolve os casos familiares.” Os trabalhadores vinham de outros pontos de África vinculados a contratos. Só no final é que podiam regressar. “Não é raro também dar-se a fuga dos serviçais”, escreveu Júlio Henriques, que, a despeito do que as suas próprias palavras revelam, defende todo o sistema como justo e humano: “Poderá alguém dizer o contrário, mas a verdade é que o tratamento actual nada tem de bárbaro.”

Em 1913, São Tomé e Príncipe era o maior produtor mundial de cacau, com 43 mil toneladas, segundo estatísticas citadas por Júlio Henriques. As roças entraram, porém, em declínio e já eram uma sombra do que tinham sido quando o país se tornou independente, em 1975. O Estado tentou reagrupá-las em empresas públicas, que não vingaram, e fez depois uma reforma fundiária, distribuindo lotes aos trabalhadores. Muitos nunca cultivaram de facto a terra. O que resta hoje é uma pulverização de pequenas e médias concessões, na maior parte sem qualquer vigor económico.

Paisagem transformada

No percurso rumo ao seu apogeu, as culturas do café e do cacau foram redefinindo a paisagem de São Tomé. Vastas áreas de vegetação natural foram substituídas por florestas de sombra, porque grande parte das árvores originais foram derrubadas. Muito antes, o mesmo tinha sido feito pela cana-de-açúcar, a primeira grande actividade económica no arquipélago. As áreas de savana na costa nordeste da ilha de São Tomé, onde chove menos, são em parte resultado desta transformação. É ali que o documentário vai buscar imagens de embondeiros (Adansonia digitata), a emblemática árvore africana, cujo tronco desproporcionalmente gordo tem a capacidade de armazenar grandes quantidades de água. “O embondeiro aguenta muita secura”, explica Jorge Paiva.

A floresta mais antiga encontra-se nas terras mais altas, no centro da ilha pontuado de montanhas e ravinas. A sua porta de entrada mais acessível é o Jardim Botânico do Bom Sucesso, sede do Parque Natural Obô, criado em 2006 e que cobre cerca de 30% do país, em dois segmentos – um em São Tomé e outro no Príncipe. O percurso a partir da capital é sempre a subir, notando-se nitidamente a descida da temperatura e as alterações na paisagem. Surgem alguns cafezais da roça Monte Café, à sombra de altas árvores. Quando o carro pára junto ao Jardim Botânico, estamos a 1157 metros de altitude.

Dali parte o caminho para o Pico e para a Lagoa Amélia – uma antiga cratera vulcânica coberta de vegetação. São percursos que Adolpho Möller fez e que a equipa de filmagem retrilhou em sucessivas incursões. Desta vez, segue-se por um trajecto alternativo – o Caminho do Fugido – com a missão de filmar árvores caídas, clareiras e algumas espécies particulares de plantas. O objectivo é o de explicar alguns conceitos botânicos – a face mais didáctica do documentário.

Um desses conceitos é o da “especiação”, ou seja, como as espécies se diferenciam em pontos distintos do planeta. Nada como um arquipélago como São Tomé e Príncipe para o fazer. O número de espécies diferentes de seres vivos, em relação à sua superfície terrestre, é tal que o país é reconhecido como um dos maiores hotspots africanos de biodiversidade. Há pelo menos 148 espécies de plantas que só existem ali, e em mais lugar nenhum do mundo. Algumas são exemplos de flora que existiam no continente africano em eras geológicas mais remotas, mas que sobreviveram apenas em São Tomé. São os chamados paleoendemismos. “É uma espécie de espelho. Conseguimos olhar para o passado e ver o que é que havia antes no continente”, explica António Gouveia, o coordenador científico dos documentários sobre as explorações botânicas.

148 Número de espécies de plantas que só existe em São Tomé e Principe e em mais lugar nenhum

Partindo do Jardim Botânico às 9h, em pouco tempo estamos dentro da floresta cerrada, onde “os raios de sol só penetram coados através das folhas”, segundo poetizou Júlio Henriques. Francisco Alamô, o guia que conduz a equipa, conta como falhou, nos anos 1990, uma tentativa de desenvolvimento de apiculturas naquela região. O dinheiro veio da Comissão Europeia, que também investiu na formação de guardas. No final, o Estado não contratou nenhum. “O parque está só no nome”, lamenta Alamô.

A caminhada é feita em silêncio, apenas com o ruído dos pés sobre a manta de folhas e ramos secos. A realizadora Luísa Homem confessa: “Não sou muito fã da floresta. No primeiro dia, vinha branca.” Tiago Hespanha, por sua vez, nunca tinha tido qualquer experiência do género. Mas ambos, mais Pedro Pinho, António Gouveia e o assistente de produção Rui Duarte, seguem com passo firme, atrás do guia.

Experiente, Jorge Paiva comenta: “Vão muito rápido, depois vão cansar-se.” O botânico vai no seu ritmo, levando um saco preto na mão, onde coloca as plantas que colhe pelo caminho. “Aqui andou um curandeiro”, diz, apontando para árvores de onde foram extraídos cirúrgicas amostras de casca.

As viagens filosóficas do século XVIII

Depois de uma hora, encontra-se uma das cenas desejadas: uma enorme árvore tombada, com um tronco de cinco metros de perímetro na parte mais larga. “É um cubango”, diz o guia Francisco Alamô. “Não é boa para construção, as térmitas penetram muito facilmente.” A espécie (Croton stellulifer) só existe em São Tomé e dá uma árvore com 30 metros de altura.

A equipa detém-se longamente naquele ponto, enquanto grandes morcegos cor de laranja serpenteiam entre as árvores. Perante a câmara, António Gouveia explica como é que uma clareira aberta pela queda de uma árvore opera como uma janela de oportunidade ecológica. Subitamente a luz chega ao nível do solo, que é rapidamente colonizado por outras espécies que não tinham tido oportunidade de crescer à sombra.

Às 11h30, enquanto uma árvore coberta por lianas muito finas intriga Jorge Paiva e António Gouveia, surge do meio da mata, como quem vem do nada, um caçador, com uma espingarda às costas e uma catana enferrujada na mão direita. Anda atrás de macacos, porcos do mato, aves, numa actividade generalizada na ilha, mas sem qualquer controlo.

O trilho prossegue agora a descer, por uma vereda que a floresta insiste em fechar com troncos caídos e amálgamas de plantas. Francisco abre o caminho com o machim, a equipa segue atrás, a câmara ao ombro de Pedro Pinho, sempre a filmar.

“Devia ser a flor de São Tomé”

Quase seis horas depois da partida, encontra-se finalmente uma das plantas de que se estava à procura. É a Impatiens buccinalis, uma espécie endémica de São Tomé, conhecida localmente como “camarões”. Já não é na floresta cerrada que se dá com ela, mas à beira de um caminho mais largo, coberto de folhas, junto a um pequeno fio de água que corre montanha abaixo. O momento entusiasma visivelmente o experiente botânico. “Aqui, olha! Que maravilha, e em flor!”, exclama.

A flor é vermelha e espessa, explica Paiva, para atrair e suportar o selelê (Anabathmis newtoni), uma ave que também é única de São Tomé e que é essencial para a polinização da planta. Com um bico curvo, o pássaro procura o néctar depositado no interior da flor, que se alonga como um saco. Ao fazê-lo, acaba por roçar a cabeça no pólen, transportando-o depois para outras plantas.

Por longos minutos, a planta é reverencialmente cortejada pelo botânico, que a observa, que a regista em fotos e que a descreve minuciosamente perante a câmara. No final, pedindo-lhe licença, recolhe três exemplares, que prefere levar na mão, ao invés de os colocar no saco. “Tenho medo de os perder”, afirma. “Para mim, devia ser a flor nacional de São Tomé.”

O regresso far-se-ia passando pela roça de Nova Moka, cuja exploração teve um impulso recente com variedades de café de qualidade. Foi ali que Adolpho Möller ficou hospedado, em 1885, para escapar ao ambiente insalubre da cidade de São Tomé, que classificou como “doentia”. Ainda assim, precavia-se. “Ao levantar da cama, a primeira coisa que faço é tomar sulfato de quinino”, escreveu numa carta.

Ao fim de uma semana de filmagens, Paiva acaba por não cumprir o desejo de regressar ao Pico, onde já tinha subido há cerca de 15 anos. A produção decide adiar a empreitada para a semana seguinte, mas nessa altura o botânico já está de regresso a Lisboa, trazendo 60 exemplares de plantas para o herbário da Universidade de Coimbra. Agora planeia comemorar os 80 anos no cimo do Pico da Nevosa, no Gerês.

A natureza é o seu refúgio. E também a sua preocupação. Num ponto do percurso com o guia Francisco Alamô, o sol fura a névoa que paira sobre a floresta e ilumina o amplo horizonte de árvores que se vê a partir de uma encosta. “É o que a natureza nos oferece”, diz o guia, dirigindo-se ao botânico, que responde: “Só não nos oferece mais porque estamos a destruí-la.”

O PÚBLICO esteve em São Tomé e Príncipe no âmbito do projecto “No trilho dos naturalistas”, da Universidade de Coimbra, que envolve a produção de uma série de documentários sobre explorações botânicas às ex-colónias, do século XVIII ao século XX (ver blogue).

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